Histórias de "O jogador", de Dostoiévski


Um dos clubes de leitura dos quais participo discute preferencialmente literatura produzida em Brasília ou sobre Brasília. O outro grupo não se atém a nenhum gênero. Lemos autores nacionais ou estrangeiros, contemporâneos ou não, e clássicos de entremeio, para aprimorar nossa formação como leitores. Estou adorando tudo isso, pois uma das coisas que mais amo na vida é ler. Lendo com método, debate e orientação, aí ficou perfeito.

No segundo clube, lemos este mês o romance "O jogador", de Dostoiévski (foto), um livro cheio de histórias até mesmo fora dele. Primeiro porque foi escrito pelo célebre autor russo em um mês, premido pela ameaça feita pelo seu editor, que ficaria com todos os direitos sobre sua obra caso ele não entregasse a encomenda no prazo. Para não perder tudo, Dostoiévski contratou uma estenógrafa, a quem ditou as palavras do livro. Na hora de entregá-lo ao chantagista, o homem havia sumido, certamente para não receber mesmo o combinado e se apropriar dos direitos do grande escritor. Aconselhado pela estenógrafa contratada, que viria a se tornar sua última companheira, Dostoiévski então entregou a encomenda na delegacia, como num depósito em juízo, e garantiu assim o cumprimento do acordo.

Bom, o segundo motivo de curiosidade em torno de "O jogador" é o debate sobre se seria ou não autobiográfico, dada o vício do autor no jogo, idêntico ao do protagonista. Muito do que se lê no livro corresponde aos momentos que ele teria vivido naquela ocasião, com sua amante (inspiradora da personagem Paulina), as perdas e os ganhos na roleta. Claro que a vida dos escritores lhes inspira histórias a contar, mas, como sói acontecer, aqui também a literatura se sobrepõe ao relato autobiográfico e temos arte de primeira. De mestre.

O livro é excelente, principalmente pelo mergulho na alma de uma pessoa dominada pela compulsão. Nesse caso, trata-se de jogo, mas pode-se aplicar o mecanismo em qualquer tipo de vício, seja na droga, no álcool, no sexo... O adicto afunda na pulsão autodestrutiva, renuncia ao amor e ao futuro em nome desse chamado mais forte que tudo. Ele não tem autoestima, não se satisfaz com nada, porque a roleta de seu gozo o atrai como ímã irresistível.

Fora isso, o romance possui passagens hilárias, como a entrada em cena da Vovó, momento em que Dostoiévski dá uma aula de como o vício se instala na pessoa, enquanto faz humor e ridiculariza as elites russas e europeias. Implacável, pessimista, realista, "O jogador" é um momento especial na literatura do grande escritor russo, e tão diferente de obras-primas dele, como "Os irmãos Karamazov", por exemplo.

Cuidado ao escolher uma versão para ler. Há edições com tradução de má qualidade e revisão sofrível. A melhor, entre três que o clube de leitura comparou, é a de Bóris Schnaiderman.

Beijocas!

Clara Arreguy, quarta-feira, abril 05, 2017.

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